Saturday, February 25, 2006

bar ruim é lindo, bicho


Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de 150 anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de 150 anos, mas tudo bem). No bar ruim que ando freqüentando nas últimas semanas o proletariado é o Betão, garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas acreditando resolver aí 500 anos de história. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar "amigos" do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura. "Ô Betão, traz mais uma pra gente", eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte do Brasil.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte do Brasil, por isso vamos a bares ruins,que tem mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gateau e não tem frango à passarinho ou carne de sol com macaxeira que são os pratos tradicionais de nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gateau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda. A gente gosta do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne de sol, a gente bate uma punheta ali mesmo.

Quando um de nós, meio intelectuais, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectual, meio de esquerda freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim. Porque a gente acha que o bar ruim é autêntico e o bar bom não é, como eu já disse. O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias
mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e nesse ponto a gente já se sente incomodado e quando chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual, nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e universitários, a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevete e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantém o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam em 50% o preço de tudo. Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato. Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se fodem, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse
algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão brasileira, tão raiz.

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda, no Brasil! Ainda mais poque a cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelo Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gateau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda, como eu que, por questões ideológicas, preferem frango a passarinho e carne de sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca mas é como se diz lá no nordeste e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o nordeste é muito mais autêntico que o sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é mais assim Câmara Cascudo, saca?).

-- Ô Betão, vê um cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

(Antônio Prata)
(foto do ricardo serpa)

9 comments:

alessandra luvisotto said...

é, eu ando meio órfã de bar meio ruim... toda vez que leio este texto sinto vontade de chorar. piora ainda quando penso que sou uma aluna de gastronomia em busca de algo "meio ruim" ou de "baixa gastronomia" no Brasil... ando perdida sem ter onde beber minha crystal, em pé, passando calor vendo alguma banda meio ruim tocar algo de garagem. órfã sobre tudo.

pedro.sim said...

textinho fascistóide, putaqueopariu...

celso muniz said...

weel, utilizando o mesmo critério antropo-sociológico-gastroliterário do pedro.sim pedro.não o mínimo que podemos dizer é que o mesmo andou com azia ou, teve a primazia de ser corneado ou gerado, bastardamente, no mesmo bar ruim que deu lágrimas a luvisotto.
mau humorzinho danado esse heim pedro? bar ruim é assim, muita gordura e banheiro sujo dos seus comensais

Anonymous said...

"Fascistóide?". Recomendo a abertura de qualquer livro de história (pode ser de ensino médio) antes de fazer uma crítica tão superficial e equivocada como essa.
O texto é uma crítica excelente à psedo-intelectualidade universária brasileira. Um passeio no Leblon, uma ida ao "samba de raiz do horto", uma noite na Lapa e você encontra 100000 exemplos daquilo que o texto retrata. Simples e brilhante.

Anonymous said...

Fascistóide seguido de putaqueopariu é comentário meio intelectual, meio de esquerda de alguém meio meio-intelectual e inteiramente desinformado acerca de litetura brasileira, o que não é de assustar. Já que a metade de meio supõe-se 1/4, fica pra lá de meio merda o comentário...

Anonymous said...

gente, o pedro passou a ser o alvo dos comentários...haha! (mantendo o foco) Obviamente, o comentário equivocado do rapaix, considerando o texto fascista, é uma besteira sem fim... e nao sei de onde conseguiu significar o texto desta forma!
Enfim... adoro esse texto, vez em outra pego-me em uma espécie de auto-avaliação, porque me encaixo em boa parte deste perfil ai (aiai)... adoro bares assim, brasil, de raiz... mas espero conseguir a critica suficiente pra poder frequentá-los sem hipocrisia. bia

RAMiRO said...

Muito bom... Mas prefiro bares meio ruins pra também pagar menos... hehe

Francisco CHICÃO said...

É, eu também procuro bares ruins pelo clima e pelo preço mais baixo...
A melhor coisa do mundo é bater no peito e falar que pagou R$ 3,50 em uma Original, enquanto seus amigos pagaram R$ 4,00 em uma Brahma!
Mas, muito bom o texto, achei bem interessante e, realmente, infelizmente, meio que me incluo nessa parcela da sociedade pseudo-intelectual pseudo-esquerdista

Anonymous said...

Achei o texto meio ruim.

Me deu vontade de rever Ilha das Flores.

Bom, food se quiser.